Chapada Diamantina 3/9 – Quilombo Remanso

Cheguei ao quilombo por volta das 10h da manhã de uma segunda feira, parei o carro e saí para algumas fotos. Quando passei pela pequena escola, no centro da pequena comunidade, tive a sorte de chegar na hora do recreio e as crianças estavam todas brincando na rua.

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Perto de Lençóis existe uma região pantanosa, que de tempos em tempos é alagada pelo rio Santo Antônio, que abriga um ecossistema rico e diverso, e que serve de lar para uma pequena comunidade descendente de quilombolas.

O pantanal de Marimbus, que já quase foi completamente devastado pela mineração, hoje é um pedaço de paraíso protegido pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina.

Uma região riquíssima do ponto de vista cultural e ambiental, que hoje encontra-se em fase avancada de recuperação, e que voltou a abrigar aves e plantas que só se vêem por ali.

No terceiro dia de viagem decidi visitar esse lugar incrível. Sem planos e sem guia, cheguei ali por volta das 10h da manhã de uma segunda feira, parei o carro e saí para tirar algumas fotos.

Conforme ia caminhando, decidi conhecer a pequena escola pública e tive a sorte de chegar na hora do recreio.

Entre as crianças que me chamavam para brincar, para posar para fotos e outras que ficavam envergonhadas, conheci as professoras e pude admirar a beleza do trabalho delas: o de levar educação a um vilarejo tao pequeno e distante, e com tradições tão próprias e tão fortes.

Conta-se que a comunidade teve início quando um ex-escravo fugido estabeleceu-se no local com sua mulher, uma indígena da região, com quem teve vários descendentes.

Hoje os habitantes da vila compartilham o orgulho de verem viva a sua cultura quilombola, sem perderem os costumes de atividades artesanais como a produção de farinha de mandioca, a pesca, as rodas de capoeira e sua religiosidade afro-indígena.

Quem me explicou melhor sobre a vida no quilombo foi a jovem professora de arte Nicole, que saiu de Salvador para lecionar em Lençóis e, depois, em Remanso.

Eu cheguei ao quilombo por conta própria e passei uma manhã inesperável, imerso na rotina daquelas pessoas, sempre tão simples e receptivas. O carinho com que fui tratado por elas foi, sem dúvidas, uma das grandes marcas dessa viagem.

*

No quilombolo conheci um guia que me levaria ao passeio de canoa pelo rio Santo Antônio até a cachoeira do Roncador. Passando pela natureza impressionante daquele mini pantanal, foram duas horas de remada rio acima e por dentro daquela natureza impressionante, até a margem que dá acesso à cachoeira.

No caminho, por uma dessas ironias da história, uma antiga casa-grande abandonada hoje é lar de quilombolas que a utilizam, com muita simplicidade, como ponto de refúgio para as trilhas que partes daquele ponto.

Dona Maria é quem comanda o almoço feito no fogão a lenha, com todo o carinho e simplicidade que lhe cabe.

Dona Maria não tem geladeira. Perguntei como ela fazia para manter aquela cozinha sem geladeira.

– Ora, tudo do que eu preciso eu colho da horta aqui atrás. O peixe é pescado no dia, no rio que está a dez passos daqui. A comida aqui é fresca por natureza. Não preciso de geladeira.

Maravilhosa!

E continuou:

– E a comida não estraga aqui. Tem sempre gente para comer. E o que sobra eu deixo para a Catutu.

Catutu!

[FOTO MERGULHO POÇO]

O meu guia pelo rio Santo Antônio foi o André. Menino de 22 anos com muita história para contar. Respondia a todas as minhas perguntas com simpatia e paciência. Me falou os nomes de milhares aves, flores, árvores e mostrou como as pessoas do quilombo usam e respeitam o rio como fonte de vida da comunidade.

Remador desde que tem memória, André faz o trajeto de 2h pelo rio diversas vezes por dia, só por prazer. Me contou que enquanto ele é um excelente remador, seu irmão é ótimo na corrida, e costuma fazer todas as trilhas correndo e descalço. Os dois já moraram em cidades como o Rio de Janeiro para treinar em equipes, cada um em seu esporte.

Mas a força da raíz os puxou de volta para o Remanso. Disse que pensa em se mudar para o Sul, ganhar dinheiro, construir vida. Mas confessou que tem medo de não se adaptar a qualquer outro lugar.

Eu e André não temos quase nada em comum. Eu cresci na cidade grande e André tem um conhecimento sem limite da vida na natureza. Mas uma coisa que nos une como seres humanos é a ansiedade frente ao desconhecido.

Agradeci pela companhia inesquecível daquele dia, pedi para tirar um retrato seu e desejei que ele fosse tão feliz na sua vida quanto eu estava por conhecer aquela gente tão pura e simples, e por experimentar a mágica daquele lugar tão especial.

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