Quilombo Remanso

Cheguei ao quilombo por volta das 10h da manhã de uma segunda feira, parei o carro e saí para algumas fotos. Quando passei pela pequena escola, no centro da pequena comunidade, tive a sorte de chegar na hora do recreio e as crianças estavam todas brincando na rua.

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Perto de Lençóis existe uma região pantanosa, que de tempos em tempos é alagada pelo rio Santo Antônio. O pantanal de Marimbus quase foi completamente devastado na época da mineração e, depois, por pastos. Com a criação do Parque Nacional e a pressão do ecoturismo, a região de Marimbus hoje se encontra dentro de uma área de preservação ambiental e exibe um ecossitema pra lá de exuberante. Aves e plantas que só existem ali voltaram a ter um ambiente para viverem e se reproduzirem em paz. As águas calmas e volumosas do rio Santo Antônio costumam atrair visitantes para canoagem, SUP e observação da fauna.

No terceiro dia de viagem decidi visitar esse lugar incrível, que abriga em uma de suas margens, a comunidade quilombola do Remanso.

Sem planos e sem guia, cheguei ao local por volta das 10h da manhã de uma segunda feira, parei o carro no meio do pequeno vilarejo e saí para tirar algumas fotos. Conforme caminhei, decidi conhecer a pequena escola pública mantida ali e, por causa do horário, tive a sorte de chegar na hora do intervalo, quando as crianças estavam todas brincando na rua. Hora boa!

Tive a sorte de conhecer as professoras que estavam trabalhando no dia e fiquei encantado com a beleza do trabalho delas, de levar o magistério a uma comunidade distante e com tradições próprias tão fortes.

 

 

Segundo a história que me foi contada pelos moradores do quilombo, a comunidade começou quando um ex-escravo fugido estabeleceu-se naquele local com sua mulher, uma indígena da região, com quem teve vários descendentes.

Em comum, todos os habitantes da vila compartilham o orgulho de manterem viva a sua cultura quilombola, sem perderem os costumes de atividades  artesanais como a produção de farinha de mandioca, a pesca, as rodas de capoeira, assim como a sua religiosidade afro-indígena.

 

 

Quem me explicou melhor sobre a vida no quilombo foi a jovem professora de arte Nicole, que saiu de Salvador para lecionar em Lençóis e, depois, em Remanso.

 

 

Além da renda trazida pelas atividades tradicionais, o crescente turismo oferece hoje uma oportunidade para a comunidade, sem que isso afete suas raízes. Agências de turismo em Lençóis tornaram-se parceiras dos habitantes do quilombo e organizam passeios pelo rio Santo Antônio empregando membros quilombolas como guias, evitando trazer mão de obra externa.

Eu cheguei ao quilombo por conta própria e passei uma manhã inesperável, imerso na rotina daquelas pessoas, cheias de simplicidade e receptividade. O carinho com que fui tratado por elas foi, sem dúvidas, uma das grandes marcas da minha viagem.

( * * * )

No quilombolo conheci um guia que me levaria ao passeio de canoa pelo rio Santo Antônio até a cachoeira do Roncador. Passando pela natureza impressionante daquele mini pantanal, foram duas horas de remada rio acima até a margem que dá acesso à cachoeira.

Chegando lá, conheci uma antiga casa-grande que, após ter sido abandona, hoje é habitada por descendentes quilombolas que a utilizam, com muita simplicidade, como uma espécie centro de recepção para visitantes.

 

 

Dona Maria é uma cozinheira de mão cheia e comanda o almoço servido na antiga casa-grande, sempre feito no humilde fogão a lenha, com todo o carinho e simplicidade que lhe cabe.

Me chamou a atenção que Dona Maria não tinha geladeira na sua cozinha, apesar do seu ofício de cozinhar para um número bastante variável e inconstante de visitantes. Perguntei a ela como ela fazia para manter aquela cozinha sem geladeira.

– Ora, tudo do que eu preciso eu colho da horta na hora. O peixe é pescado no dia, ou no dia anterior, no rio que está a dez passos daqui. A carne dura de três a quatro dias em potes. A comida aqui é fresca por natureza, não preciso de geladeira.

Maravilhosa!

E continuou:

– E a comida não estraga aqui. Tem sempre gente para comer. E o que sobra eu deixo para a Catutu.

 

Catutu!

 

De lá peguei a trilha pra a cachoeira do Roncador, em um trilha leve de 30~40 mins de duração. É uma cachoeira que impressiona, com a água escorrendo pelas pedras rosas da região, formando pequenas piscinas particulares no seu percurso, com a vista infinita para o verde intenso desse paraíso. Com certeza uma visão que dificilmente vai sair da minha retina.

 

[FOTO MERGULHO POÇO]

O meu guia pelo rio Santo Antônio foi o André. Menino de 22 anos mas com muita história para contar. Respondia às minhas perguntas curiosas com toda simpatia e propriedade. Me falou os nomes de milhares aves, flores, árvores e mostrou como as pessoas do quilombo usam e respeitam o rio como fonte de vida da comunidade.

Remador desde que tem memória, André faz o trajeto de 2h pelo rio algumas vezes por dia, só por prazer. Me contou que enquanto ele é um excelente remador, seu irmão é ótimo na corrida, e costuma fazer todas as trilhas correndo e descalço. Os dois já moraram em cidades como o Rio de Janeiro para treinar em equipes, cada um em seu esporte.

Mas a força da raíz os puxou de volta para a vida no Remanso. Soube que ele pensa, afinal, em mudar-se para o Rio Grande do Sul, para trabalhar com o primo que está lá, ganhar dinheiro, construir sua vida. Mas confessou que tem medo de não se adaptar a qualquer outro lugar.

Eu e André não temos quase nada em comum. Eu cresci na cidade grande e André tem um conhecimento sem limite da vida na natureza. Mas uma coisa que nos une como seres humanos é o medo diante do desconhecido. Largar seu habitat, arriscar-se na aventura de construir uma vida assustava André. Entendi. O Remanso é o continho de mundo que André tem a sorte de ter como abrigo.

Agradeci pela companhia inesquecível daquele dia, pedi para tirar um retrato seu e desejei que ele fosse tão feliz na sua vida quanto eu estava me sentindo naquele. por conhecer aquela gente tão pura e tão simples, e por experimentar a mágica daquele lugar tão importante na identidade daquelas pessoas.

 

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