Chapada Diamantina

De viajar para lugares de refúgio na natureza eu sempre gostei. Aliás, viajar de carro sempre foi uma paixão. E a Chapada Diamantina estava nos meus planos de viajeiro há mais tempo do que eu podia imaginar.

Conquistar a Chapada Diamantina é um desafio. Somente o Parque Nacional cobre uma área de 41 mil km² de trilhas, cachoeiras e cidadezinhas. E eu decidi tomar esse desafio por conta própria, sem guia, sem reservar hospedagem e sem muito planejamento. A viagem ditaria seu próprio ritmo.

Antes de embarcar a sensação é de que todo o tempo do mundo não seria o suficiente para conhecer tudo. E isso, de fato, prova ser uma grande verdade.

 

 

Voei do Rio a Salvador e, em cinco horas de estrada, cheguei a Lençóis, cidade que costuma ser o ponto de início mais comum para quem vai conhecer a Chapada.

Lençóis é uma cidade bem estruturada e com uma surpreendente arquitetura colonial, resquício do período de exploração de diamantes. Com a criação do Parque Nacional, em 1985, o turismo colocou Lençóis de volta no mapa, atraindo turistas, artistas e boas opções de bares e restaurantes.

 

 

A cidade é cortada pelo rio Lençóis, que forma piscinas e quedas d’água ainda nos arredores da cidade. A minha preferida ficou sendo a do Serrano, que servia de camarote para o por do sol no fim de cada dia.

 


Para os dez dias de viagem, eu dividi a área da Chapada em Norte, Centro e Sul, ficando mais ou menos 3 dias em cada porção.

Na parte norte da Chapada, tendo Lençóis como pouso, conheci as principais grutas da região: Lapa Doce, Torrinha e Pratinha, que estão em fazendas particulares mas sob forte controle dos órgãos ambientais, o que garante o ótimo estado de conservação de todas.

A Lapa Doce é a quinta maior caverna do Brasil e mundialmente famosa por suas milenares estalagmites e estalactites e por seus desenhos ruprestes.

 

 

Perto dali está a propriedade que abriga a Gruta Azul e a Gruta da Pratinha, também particular, mas com um ambiente comercial, com tudo posto a venda e sem controle de acesso, o que gerava um certo tumulto que, infelizmente contrastava com a beleza do lugar.

 


Ainda perto de Lençóis existe uma região pantanosa, inundada pelo rio Santo Antônio, que abriga um ecossistema rico e que é lar para uma pequena comunidade descendente de quilombolas. O pantanal de Marimbus, que já quase foi completamente devastado pela mineração, hoje é um pedaço de paraíso protegido pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina.

 

 

Conta-se que a comunidade do Remanso teve início quando um ex-escravo fugido e uma indígena da região estabeleceram-se na região e tiveram ali vários descendentes.

Hoje, beneficiados pelo turismo – praticado com mão-de-obra local – os habitantes da vila compartilham o orgulho de verem viva a sua cultura quilombola, sem terem perdido os costumes de suas atividades artesanais como a produção de farinha de mandioca, a pesca, as rodas de capoeira e sua religiosidade afro-indígena.

 

 

Quem me explicou melhor sobre a vida no quilombo foi a professora Nicole, que saiu de Salvador para lecionar em Lençóis e, depois, no Remanso.

Cheguei no Remanso em um dia de semana, por conta própria e passei uma manhã inesperável, imerso na rotina daquelas pessoas, sempre tão simples e receptivas. Falei com as pessoas do local, conheci a rotina da escola, me encantei pelas crianças e pelas professoras que fazem do magistério a missão de suas vidas. O carinho com que fui tratado por todo mundo foi, sem dúvidas, uma das grandes memórias dessa viagem.

*

No quilombo conheci o guia que me levaria ao passeio de canoa pelo rio Santo Antônio até a cachoeira do Roncador. Passando pela natureza impressionante daquele mini pantanal, foram duas horas de remada rio acima até a margem que dá acesso à cachoeira.

 

 

Na antiga casa grande, onde hoje os descendentes de quilombolas recebem visitantes para um almoço simples, não há geladeira. Perguntei como faziam para manter aquela cozinha sem geladeira.

– Ora, tudo do que eu preciso eu colho da horta aqui atrás. O peixe é pescado no rio a dez passos daqui. Não precisamos de geladeira.

 

Maravilhosa!

 

– E a comida não estraga aqui. Tem sempre gente para comer. E o que sobra eu deixo para a nossa princesa.

 

A princesa.

 

A casa grande serve de base para os visitantes que chegam até ali no remo e seguem a trilha morro acima até a incrível cachoeira do Roncador, que corre pelas pedras rosas formando diversas piscinas naturais.

 

 

*

O meu guia pelo rio Santo Antônio foi o André, garoto de 22 anos com muita história para contar. Respondia a todas as minhas perguntas com simpatia e paciência. Me falou os nomes de milhares aves, flores, árvores e mostrou como as pessoas do quilombo usam e respeitam o rio como fonte de vida da comunidade.

Remador desde que tem memória, André passa os dias no rio. Já morou no Rio de Janeiro para treinar em equipe profissional de remo, mas a força das raízes o puxou de volta para o Remanso.

Eu e André não temos quase nada em comum. Eu cresci na cidade grande e André tem um conhecimento sem limite da vida na natureza. Mas nos reconhecemos como iguais pelo respeito e pelo amor à natureza.

Agradeci pela companhia inesquecível naquele dia. Pedi para tirar um retrato seu e desejei que ele fosse tão feliz na sua vida quanto eu estava naquele momento por conhecer aquela gente tão pura e tão humilde, e por experimentar a mágica daquele lugar tão especial.

 


Antes de seguir caminho pelo restante do Parque Nacional, deixei para o último dia do pouso em Lençóis a ida ao tão famoso Morro do Pai Inácio, cartão postal do interior baiano, mas não sem antes ter passado por mais cachoeiras que, apesar de fácil acesso, ainda eram nada menos que incríveis.

 

 

Parei no Poço do Diabo, bem à beira da BA-242, e também na Cachoeira do Mosquito, que fica enfurnada na parte final de um cânion.

 

 

As fazendas que cercam o Parque Nacional da Chapada Diamantina, em sua maioria, desenvolveram setores voltados ao ecoturismo, além de suas atividades agrícolas normais.

Em todas que eu parei para comer, o alimento servido era produzido em horta local, o que significa alimentação 100% orgânica, com o sabor e simplicidade do interior baiano. Por mais que eu estivesse na Bahia, não foi difícil manter a alimentação saudável em dia.

 

 

Finalmente no fim dia cheguei ao Morro de Pai Inácio. Já era fim de tarde, hora perfeita para meditar e tirar umas fotos antes do sol desaparecer. Agradeci por aquele imenso espetáculo e pelo privilégio de poder conhecer esse lugar tão inacreditável.

 


Começando a descer para a parte Central da Chapada, fui em direção a pequena vila do Vale do Capão, fazendo paradas no meio do caminho. Uma delas, meio que por acaso e meio que pelo cansaço de dirigir a noite, foi a cidade de Palmeiras.

 

 

A primeira vista, achei que Palmeiras não teria muito a oferecer. Seria apenas uma cidadezinha no interior. Escolhi uma pousada aleatória apenas para passar a noite. Mas acordei no dia seguinte bem de frente para uma casa toda construída com material reciclado. E foi assim que conheci o trabalho maravilhoso de conscientização ambiental do GAP.

 

< O carro ecológico, sem radiador, feito pelo pessoal do GAP >

 

O GAP – Grupo Ambientalista de Palmeiras é uma ONG que “atua na defesa, conservação e recuperação do meio ambiente da Chapada Diamantina”.

Ali absolutamente tudo é feito com material coletado na região, desde portas e paredes, até obras de arte e instrumentos musicais. Mascote do GAP, o carro usado para coleta de materiais foi adaptado pela própria organização e não possui radiador, funcionando a bateria.

Surgido nos anos 90, o GAP atua não só na reciclagem de materiais, mas também em obras diretas de conservação do meio ambiente, como replantio de mata nativa; e de ações de inserção sócio-cultural, como rodas de capoeira, conscientização ambiental e horto comunitário. Quem me mostrou o projeto foi Théa, que trabalha no GAP desde o início da organização.

Eu, pessoalmente, não consigo descrever o quanto eu fiquei emocionado de ver um trabalho tão bonito e importante sendo realizado no interior do Brasil, sem nunca ter ouvido falar sobre ele. Todo o trabalho desenvolvido pelo GAP é incrível, desde coleta de lixo, obras de arte com sucata, até replantio de florestas etc. Mas a conquista do GAP que mais me deixou comovido foi o apoio e conscientização da comunidade local.

Nascido do movimento reggae, o GAP era visto no início como coisa de louco. Mas como me disse um de seus fundadores: O QUE SERIA DO MUNDO SEM OS LOUCOS?

Os catadores do GAP passam pela cidade diariamente coletando o lixo das residências e ensinando as pessoas a separar o lixo da forma mais simples e eficaz possível: lixo seco e lixo orgânico. Com trabalho persistente, o GAP conseguiu mudar a consciência coletiva da região em relação ao lixo e, hoje, a adesão ao trabalho deles é de quase a totalidade do município e região.

O GAP existe praticamente sem apoio financeiro do poder público, e quase sem apelo dentro da rota turística da Chapada. Sua única fonte de renda é a venda de artesanato e a colaboração da população local. A venda do material reciclável é convertida em renda para os trabalhadores que atuam na coleta, triagem e processamento.

Vida longa ao GAP e aos loucos desse mundo!

 

Esse é o Théa, quem me apresentou a linda história e o belíssimo trabalho do GAP.


Palmeiras, na real, foi uma grata surpresa no caminho entre Lençóis e meu próximo ponto de interesse: a cachoeira da Fumaça. E esse talvez tenha sido o momento de maior expectativa de toda a viagem.

Já conhecia a cachoeira da Fumaça por documentários e não podia acreditar que estava acordando no dia em que eu iria conhecer a cachoeira que escorre para o alto.

É um dos fenômenos mais impressionantes da natureza. Com o vento entrando encanado pelo vale com tanta força, a cachoeira da Fumaça corre para cima. Soa impossível de acreditar por que é! E experimentar essa maravilha da natureza de perto é algo que eu nunca vou conseguir colocar em palavras.

 

 

Na descida da trilha, cansado e ainda sem acreditar no que tinha visto, parti para a vila do Vale do Capão. Não é uma cidade histórica, como tantas outras pelas quais passei ou ainda iria passar. Mas certamente é um lugar com uma energia especial.

Um lugar de encontros que, apesar de pequeno, abriga pessoas das mais diversas nacionalidades, credos e estilos de vida: rastafaris, monges, hippies e tantas outras manifestações que decidiram abandonar suas vidas de origem para se encontrarem na natureza da Chapada Diamantina.

O Vale do Capão é, definitivamente, um lugar de desapego e de encontros.

 

 

Não tenho muita foto no Capão por motivos de estar conectado demais com o lugar. E depois de vários dias seguidos subindo e descendo trilha, decidi ter um dia mais calmo para conhecer melhor a região do Vale do Capão que, apesar de ter cachoeiras menos monumentais do que as que tinha visto até então, não deixaria nada a desejar pela beleza e pela energia do lugar.

E foi, mais uma vez, por um acaso que sem querer descobri um dos lugares mais encantadores dessa viagem.

Na trilha para a cachoeira Angélica, errei o caminho e fui subindo e subindo até parar na trilha que cruzaria o Vale do Pati, um planalto descampado rodeado de rochedos imensos. Era inacreditável estar naquele lugar, rodeado por aquela natureza estonteante e que não estava nos planos.

 

 

Na descida, finalmente achei o caminho correto para a cachoeira Angélica. No final das contas, o errado saiu certo, e pude aproveitar a piscina natural da cachoeira com exclusividade para descansar depois de um dia de caminhada e visual incríveis.

 

 

Ainda nesse dia mais uma preciosidade me aguardava, e mais uma vez fui presenteado pelo acaso. Indo conhecer o Poço do Encantado eu sabia que precisaria de muita sorte para ver o raio de sol entrando pela na gruta, já que isso só acontece em raras ocasiões.

Desci com um grupo de visitantes, e ouvimos toda a explicação sobre a história do lugar. Contemplamos o silencio absoluto da gruta por alguns minutos antes de iniciarmos a saída.

De volta ao carro, percebi que a capa da minha câmera tinha caído na gruta. O guia, muito gentilmente, me vestiu com os equipamentos e descemos de volta, apenas nós dois para buscar a capa. Chegando lá, acabei vendo sozinho o espetáculo reservado só para mim.

 

E a capa da câmera? Sim, eu achei :)

 


Se as surpresas não tinham sido bastante, no meio do caminho da descida até a parte Sul da Chapada, a estrada cruzava pela esquecida vila de Mucugê, importante centro produtor na época da mineração, mas esquecida pelo tempo e pela indústria do turismo – ainda bem.

Depois de tantos vilarejos humildes, de casas simples e ruas empoeiradas, Mucugê aparece como um oásis no meio do caminho, com suas casas coloniais inalteradas e muito bem preservadas, ruas de paralelepípedo bucólicas, e as montanhas da Chapada Diamantina como moldura.

 


Até aqui a viagem pela Chapada Diamantina já tinha sido bastante incrível. Mais do que eu poderia imaginar. E durante todo o percurso ouvi falar da Cachoeira do Buracão, do seu difícil acesso e de como ela era incrivelmente impressionante. Tudo isso foi alimentando a minha curiosidade e expectativa para chegar logo o dia em que eu iria conhecê-la.

Essa viagem da Bahia me fez perceber a beleza e a importância de se fazer trilhas mais complexas com guias locais. Quase todos eles são pessoas que cresceram ali e, por isso, cuidam do local com o máximo de carinho, recolhendo todo tipo de lixo e microlixo deixado pelos visitantes. Além disso, eles trazem consigo a história do lugar, falando das transformações que aquele local sofreu e como aquilo impacta diretamente na vida daquelas pessoas que tem suas vidas tão intrinsecamente conectadas com aquele ambiente.

O guia que passou o dia comigo me contou que a área do rio e da cachoeira ficavam, no passado, em área particular de fazenda e que, de tão grande, a cachoeira era praticamente desconhecida, mas que servia de playground para a população local. Hoje o local se tornou área pública, sendo parte do Parque Nacional da Chapada Diamantina e atrai um número crescente de visitantes.

 

 

A primeira parte da trilha é uma área plana que acompanha a margem do rio Una, um rio de corredeiras que durante todo o tempo mostra a força das suas águas avermelhadas. Na descida da parte alta do rio até a base da cachoeira, a trilha cruza a cachoeira do Recanto Verde, que sai de dentro do paredão rochoso para se encontrar com o rio Una naquele local.

 

 

Como o nome sugere, a Cachoeira do Buracão cai dentro de uma enorme cratera. Descendo a trilha, novamente às margens do rio Una, é necessário pular na água e cruzar o cânion a nado para acessar a cratera onde a cachoeira despenca de 90 metros de altura.

 

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***

É muito difícil eleger o que eu mais gostei de fazer durante toda essa viagem pela Chapada Diamantina. Foram muitos destaques até aqui. Mas se houve um ponto alto, com certeza fica por conta desse dia.

Toda a beleza que existe na brutalidade da natureza, e todo o amor que ela desperta nas pessoas que querem cuidar dela, tudo isso fez a minha experiência na Cachoeira do Buracão uma das mais inesquecíveis da minha vida.

No caminho de volta, já na estrada retornando para Ibicoara, algumas outras cachoeiras aparecem, todas de fácil acesso. Como ainda faltavam umas 2 horas para começar a escurecer, decidi terminar o dia contemplando a beleza da cachoeira do Licuri.

E foi com esse retumbante espetáculo que eu fechei uma viagem extremamente mágica. Existe um clichê que diz que nós não fazemos uma viagem, são as viagens que nos fazem. E isso foi a mais pura verdade. Essa experiência que eu tive ao longo de quase dez dias pela Chapada Diamantina mudou de forma radical a minha vida, mudou minha percepção de mundo e me colocou em contato com uma paixão feroz de conhecer e proteger a imensidão da natureza que nos rodeia e nos mantem vivos.

 

 

 

 

 

 

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